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Revista Rua Grande

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Coluna de Cinema


A Origem do Carcaju


   Este sujeitinho simpático é o verdadeiro WolverineWolverine reencontra um antigo colega de escolaNão, não há nada errado com o título acima. O mutante Wolverine, personagem icônico das histórias em quadrinhos e dos filmes dos mutantes X-Men, encarnado com vigor por Hugh Jackman no cinema, teve o nome retirado de um animal natural do Canadá, o tal carcaju aí de cima. O bicho é um mamífero pequeno, de cerca de 40 cm e que possui garras fortes que ficam escondidas sob a pele. É uma espécie de gambá-urso em miniatura (cruz credo) que, quando exibe as garras, ataca até animais bem maiores do que ele. Há até uma lenda indígena canadense que diz que o animal seria imortal.    Buenas, apesar da versão cinematográfica de Wolverine não ter nada de pequena (Jackman tem 1,90 m de altura), o personagem nos gibis sempre foi mesmo baixinho. Tirando a altura, todas as outras características do carcaju estão presentes em Wolverine, desde o temperamento invocado até a suposta imortalidade (ou capacidade de regeneração, como corrigiriam os fãs).

   Wolverine, o mutante da Marvel, repetiu no cinema (nos ótimos X-Men: O Filme e X-Men 2 e no irregular X-Men: O Confronto Final) o sucesso que o tornou nas histórias em quadrinhos um dos personagens favoritos entre os fãs, tanto que tem revista própria desde a década de 80. Daí para ganhar um filme próprio, então, era só um passo. De produção complicada, que passou por refilmagens de última hora e teve uma versão inacabada vazada na Internet e baixada por imbecis ao redor do mundo, a produção chega às telas com estrondoso sucesso de público, o que prova que: a) teremos ainda muitas adaptações de quadrinhos no cinema pela frente; b) tanto Hugh Jackman quanto Wolverine SÃO os caras.

   O paradoxo é que justamente o principal problema de X-Men Origens: Wolverine (X-Men Origins: Wolverine, EUA, 2009) é não confiar totalmente no mutante de garras afiadas para segurar o filme sozinho.

   Com o propósito claro de conseguir inserir outros personagens com superpoderes que garantissem outros filmes (leia-se: mais e mais dólares em bilheteria, merchandising e variados bonequinhos), o estúdio Fox, que bancou a empreitada, recheou o filme solo de Wolverine com aparições relâmpago de dezenas de mutantes, vindos (ou não) dos quadrinhos dos X-Men. O resultado é que, sempre que o filme desvia o foco da origem do personagem e do seu eterno embate com o arqui-inimigo Dentes de Sabre (o excelente Liev Schreiber), a trama perde força. É justamente quando os dois estão em cena que o filme cresce, desde a brilhante seqüência de abertura, com os personagens combatendo juntos em guerras diversas no decorrer dos anos.

   Comandada pelo sul-africano Gavin Hood (ganhador do Oscar de filme estrangeiro por Geração Roubada), X-Men Origens: Wolverine acerta no protagonista, no vilão e nas boas cenas de ação. Erra completamente, entretanto, ao enfiar goela abaixo do público personagens coadjuvantes mal desenvolvidos e cuja única razão de existência é levarem uma surra de Wolverine até o final da projeção. E cenas de pancadaria não faltam. É só algum personagem olhar de canto para Wolverine que ele sai no braço (ou nas garras) com o sujeito.

   Há ainda espaço para algumas derrapadas violentas, como a explicação estapafúrdia para a perda da memória de Wolverine ou a aparição bizarra de um professor Xavier recriado em computação gráfica tosca e que parece ter sido feito no Photoshop.

   Ao apostar em uma aventura rasteira, com ênfase na ação em detrimento a qualquer alusão à ideologia proposta principalmente em X-Men 1 e 2, com suas alegorias políticas e sociais de luta contra o preconceito no mundo, o filme solo de Wolverine resulta em uma boa sessão da tarde, que diverte e quase nunca aborrece. Mas que também tem a profundidade de um pires.

   Se a intenção era criar um filme movimentado e despretensioso, X-Men Origens: Wolverine pode ser considerado muitíssimo bem sucedido. Já se os produtores queriam atingir a excelência dos primeiros filmes dos X-Men, resta tentar de novo na inevitável continuação, pois esta é a única certeza: o carcaju está longe de ser declarado extinto.

   Texto: Luiz Fernando Pedrazza

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