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Revista Rua Grande

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Ter, 22 de Dezembro de 2009 12:40


                                    Do passarinho ao elefante

 

Redação RUA GRANDE

Ele nasceu em Formigueiro, pequeno município gaúcho, hoje com oito mil habitantes, localizado "quase no coração do Rio Grande", como diz Cláudio Giacomini: "fica entre Santa Maria, Restinga Seca e São Sepé".

Ele fez o curso primário no Grupo Escolar Oliva Lorentz Schumacher, em sua cidade natal (1958 a 1962), o secundário no Ginásio Nossa Senhora de Lourdes, no Vale Veneto, (1962 a 1965), o colegial em Santa Maria, no Colégio Estadual Maria Rocha, e o curso superior em Veterinária, na UFSM - Universidade Federal de Santa Maria, formando-se em 1974.

Cláudio Giacomini veio para São Leopoldo, em julho de 1975, mês do aniversário da cidade que, com os anos, o transformou em leopoldense por adoção e de coração. Exerceu função pública sempre no Parque Zoológico, foi diretor por oito anos e iniciou sua participação política no antigo PSD, "meu norte político sempre foi a Social Democracia, estive no PTB e hoje estou no PSDB por achar que é o partido que mais se coaduna com o meu pensamento político".

Em todos os partidos citados concorreu a vereador e - afirma - "sempre me elegi suplente a nível de primeira diplomação". Na última eleição municipal, ficou na segunda suplência pelo PSDB. Fez 799 votos. Atualmente, é presidente da executiva municipal do seu partido em São Leopoldo.

Há 15 anos, o doutor Cláudio Giacomini integra a diretoria da Sociedade Brasileira de Zoológicos, participando de um congresso ao ano para especialização e reciclagem. Este ano, dia 30 de outubro, ele foi convidado a ocupar, "com muita honra e emoção" como disse, a cadeira 24 da Academia Rio-Grandense de Medicina Veterinária, da qual fazem parte 26 profissionais da área.

Embora sua agenda repleta de compromissos na função exercida no Parque Zoológico, Giacomini encontra tempo para curtir futebol, seu hobby predileto, torcer pelo Inter ("sou Inter roxo") e apreciar as músicas dos Beatles e, no âmbito regional, as melodias gauchescas que lembram sempre a bonita história e as tradições do Rio Grande. No cinema, um filme inesquecível é Proposta Indecente, estrelado por Demi Moore.

Aos 58 anos, Cláudio Giacomini é divorciado e tem três filhas: Camila, Natália e Bianca.

A seguir, o resumo de sua entrevista concedida à RUA GRANDE.

RUA GRANDE – Quando decidiu por sua formação profissional em Veterinária e quando iniciou seu trabalho junto ao Zoológico, em Sapucaia do Sul?

GIACOMINI - O meu irmão mais velho, Vanderlei José Giacomini, também é veterinário. Foi espelhado no seu trabalho e vendo a grande importância social da profissão, me decidi pela veterinária e prestei vestibular em 1970, tendo me formado quatro anos depois. Comecei a trabalhar no Zôo dia 14 de julho de 1975.

RG - O senhor sempre trabalhou junto a animais, aves, um trabalho simplesmente fascinante.

GIACOMINI - A minha tendência primeira e minha orientação acadêmica era a de trabalhar na área de defesa sanitária animal, talvez em uma Inspetoria Veterinária do estado. No entanto, fora de qualquer planejamento, surgiu a vaga no Zôo, e vim para fazer um teste de um mês, para ver se me adaptaria a este ramo da veterinária até então inexistente em meus propósitos. O teste se transformou em trinta e quatro anos no Zôo, atendendo do passarinho ao elefante, passando por inúmeras aves, vários répteis e outros tantos mamíferos. Hoje, sem nenhuma dúvida, escolheria de novo este desafio. O trabalho no Zôo é extremamente fascinante, justamente pela diversidade de espécies animais presente em um Zoológico, cada uma com suas características peculiares, transformando a medicina veterinária de Zoológico em uma constante sala de aula aonde a renovação de conhecimentos e pesquisa são imperiosas e diárias. Já dizia um professor universitário que "ser veterinário generalista já é complicado, mas ser generalista de animais silvestres é muito mais complicado ainda....". Isto expressa bem a complexidade que é a atuação veterinária com estas espécies animais. Apesar de tudo é extremamente gratificante é realmente fascinante, pois permite que se conheça os detalhes, as características, o comportamento, as individualidades de cada espécie, assim como a importância de cada um no processo evolutivo e manutenção da biodiversidade.

RG - Quando realizou a primeira cirurgia em um animal ou ave? Qual foi a emoção de ter salvo uma vida neste mundo animal?

GIACOMINI - Eu tenho uma especial predileção pelo ramo da cirurgia, acho muito gratificante quando se tem uma evolução positiva e resolutiva de um procedimento cirúrgico, principalmente sabendo que isto resultou na manutenção da vida do animal ou que se permitiu uma melhor condição de vida para o paciente. Mais gratificados ficamos ainda quando, muitas vezes, após o retorno da anestesia no pós-operatório, somos brindados com um mero olhar ou um abanar de rabo, gestos que expressam uma gratidão muda, mas com certeza verdadeira.

RG - Qual a média de atendimentos que o senhor realiza, mensalmente, em sua atividade? GIACOMINI - Especificamente no Zoológico, a média de atendimentos é muito variável, pois procuramos sempre trabalhar com medidas profilático-preventivas, procuramos evitar que os animais adoeçam, pois o tratamento clínico-cirúrgico destes animais é bastante complicado, pois são animais selvagens e de difícil manejo e contenção. Nas diferentes épocas do ano os atendimentos variam, por exemplo, na primavera temos uma maior ocorrência de nascimentos, gerando maior necessidade de cuidados com os filhotes. Já no verão temos de ter cuidado com o calor excessivo e seus efeitos, assim como no inverno com as baixas temperaturas. No Hospital Veterinário do Zoológico atendemos em média 200 animais ao mês.

RG - O que representa para as comunidades, o trabalho realizado pela equipe de funcionários do Zôo?

GIACOMINI - O papel dos Zoológicos do mundo todo envolve pesquisa, conservação de fauna, recreação e lazer aos visitantes.

RG - Parece incrível, mas existem pessoas em São Leopoldo que dizem nunca terem ido ao zôo. O que elas estão perdendo?

GIACOMINI - O Zoológico de Sapucaia do Sul oferece aos visitantes, além do seu plantel animal em exposição uma importante área verde de lazer e descanso inigualável na região.

RG - Quantos espécies existem em nosso Zôo?

GIACOMINI - 0 Zoológico possui 1100 animais, de 105 diferentes espécies, nativas e exóticas.

RG - A visitação é regular ou vem aumentando ao correr dos anos?

GIACOMINI - Segundo um censo realizado pela Sociedade de Zoológicos do Brasil em 2007 com 83 Zôos em operação no Brasil se verificou uma média de 227.360 visitantes/ano por instituição. Estes dados colocam os Zôos como recordistas nacionais em volume de público, deixando para trás eventos que tradicionalmente reúnem grandes públicos como campeonatos de futebol e outros esportes de massa. No caso do nosso Zôo, segundo informação do setor de atendimento ao público, a visitação tem se mantido estável com cerca de 400 a 500 mil visitantes/ano.

RG - Os estudantes da região visitam seguidamente o parque?

GIACOMINI - Os estudantes da região visitam sim o parque, utilizando-o como uma grande sala de aula ao ar livre.

RG - Qual o bicho que mais atrai o visitante?

GIACOMINI - Na minha opinião, os animais de grande porte, como as girafas, os rinocerontes, os hipopótamos, entre outros, assim como os grandes felinos, macacos e as cobras.

RG - Qual o mais velho dos animais existentes no parque?

GIACOMINI - O animal mais antigo do Zoológico é a elefante Pink, que tem 40 anos de idade, chegou no Zôo em 1973 com quatro anos.

RG - Quantos Zoológicos existem em atividade no Brasil? Pela ordem, qual a importância e o lugar do nosso Zôo entre os demais zoológicos brasileiros?

GIACOMINI - Hoje no Brasil, de acordo com dados da Sociedade de Zoológicos do Brasil existem 127 zoológicos em atividade no país, que concentram cerca de 37.000 animais no total. O Zoológico do Rio Grande do Sul tem um papel fundamental neste contexto tendo em vista o seu grande plantel de animais, sua área e recintos amplos, sendo considerado um dos cinco maiores do país.

RG - Qual a área total do parque em Sapucaia do Sul? Existe parte da área em território leopoldense? É verdade que em realidade, o Zôo começa sua área na antiga vila Duque, em São Leopoldo?

GIACOMINI - A área total do Zoológico é de 780 hectares, sendo 160 ocupados pelo parque propriamente dito e 620 de área de reserva florestal. É uma das maiores áreas verdes da região metropolitana. Esta área se encontra localizada desde a vila Duque em São Leopoldo até o rio dos Sinos em Sapucaia do Sul.

RG - Qual o setor mais procurado pelos visitantes, hoje?

GIACOMINI - O público se dispersa por todas as áreas do parque aproveitando as áreas de recreação e a exposição dos animais.

RG - O senhor foi recentemente homenageado pela Academia Rio-Grandense de Medicina Veterinária. Como recebeu esta homenagem?

GIACOMINI - Fazer parte da Academia Rio-Grandense de Medicina Veterinária é uma grande honra, é o ápice de uma carreira repleta de dedicação e empenho. Para ser um acadêmico não basta ser competente, ter um belo curriculum vitae, é preciso, que se some às conquistas profissionais um passado e um presente ilibado, que seja um trabalhador e seja um baluarte na defesa da ética e digno da cadeira que agora nos cabe.

RG - Já pensou em escrever um livro sobre sua vida nesta fascinante profissão?GIACOMINI - Sim já pensei, temos muitas histórias ocorridas ao longo destes trinta e quatrob anos de trabalho no Zoológico. RG - Qual a mensagem que, como veterano veterinário, dirige aos mais jovens? GIACOMINI - Certo dia passei os olhos em algumas frases que expressam bem mensagens importantes a serem transmitidas aos colegas mais novos, que dizem: pensando bem... Ser veterinário não é só cuidar dos animais. É sobretudo amá-los, não ficando somente nos padrões de uma ciência médica. Ser veterinário é acreditar na imortalidade da natureza e querer preservá-la sempre mais bela. Ser veterinário é não se importar se os animais pensam, mas se sofrem. É dedicar parte do seu ser à arte de salvar vidas. Ser veterinário é aproximar-se de instintos. É perder medos. É ganhar amigos de pêlos e penas, que jamais irão decepcioná-lo. É adivinhar olhares, é lembrar do seu tempo de criança, querer levar para casa todos os animais vadios sem dono. Ser veterinário é conviver lado a lado com ensinamentos profundos sobre amor e vida. Nestes trinta e quatro anos de exercício da medicina veterinária, tanto no Zôo, como nos cerca de nove anos na Clínica Veterinária Multibichos, em São Leopoldo em parceria com a Drª Vanessa Diehl sempre procurei ser digno da profissão que abracei, com dedicação, ética, responsabilidade e respeito aos animais, são estes princípios que desejo passar aos prezados jovens colegas que iniciam na profissão.


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