| Qua, 21 de Dezembro de 2011 13:34 |
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Réveillon do Inferno No início do ano, estive em Nova York e perambulei pela Big Apple. Lá pelas tantas, dei de cara com um monte de trailers (dezenas, na realidade), enfileirados pela Sétima Avenida. Era a filmagem de uma produção de Hollywood, descobri na hora. Estavam rodando esse Noite de Ano Novo (New Year’s Eve, EUA, 2011) que acaba de entrar em cartaz, pouco mais de 9 meses depois. Acompanhei a filmagem do que seria o réveillon anunciado pelo título, uma réplica do que ocorre na Times Square de Nova Iorque, com direito a bola luminosa caindo e tudo. Juro que eu estava inserido na massa de figurantes. Decidi que ficaria atento quando o filme estreasse para ver se achava o meu focinho no meio da multidão.Acontece que Noite de Ano Novo não é só mais uma produção americana mediana. Pelo contrário: é péssimo do primeiro até o último fotograma. Constrangedor para todos os envolvidos, eu arriscaria. Tão medíocre que só pode ser comentado em partes: - O público-alvo: no subgênero das produções superficiais produzidas em série por Hollywood, existem “filmes de mulherzinha”, normalmente estrelados pela Julia Roberts ou pela Sandra Bullock, produções com temática edificante que sempre pretendem transmitir um sentimento de esperança na Humanidade e, mais especificamente, nos relacionamentos amorosos. Há também os “filmes de homenzinho”, que geralmente estampam no cartaz a cara paralisada do Stallone, mas daí já é outra história. Noite de Ano Novo é um “filme de mulherzinha” da gema, daqueles feitos para as mulheres saírem do cinema com os olhos lacrimejantes. Pois o filme consegue fracassar até junto à platéia para qual é voltado: a minha esposa, após a exibição, olhou nos meus olhos e decretou em tom solene: “esse é o pior filme do ano”. Nada mais a declarar, Excelência. - O roteiro: pegue um monte de personagens e coloque-os nas situações mais batidas possíveis, num infindável trololó sobre o poder do ano-novo como data capaz de resolver todo e qualquer problema, de desilusões amorosas e reconciliações familiares até... independência financeira!!!! E tome intermináveis discursos dignos do mais barato dos livros de auto-ajuda (quando o quarto personagem levantou uma taça de champanhe para falar umas palavrinhas, eu resolvi me mexer na cadeira para não começar a roncar tão alto dentro do cinema). - O cenário: Nova Iorque está linda como em qualquer outro filme ambientado na cidade. Acontece que, aparentemente, os bairros mais pobres da Big Apple simplesmente não existem no mundo de Noite de Ano Novo. Só o que interessa são os moradores financeiramente estáveis da metrópole. Nada de Brooklyn, muito menos de Harlem, Queens ou Bronx. A Manhattan do filme aparentemente possui apenas 4 ou 5 quarteirões.- A comédia: nada funciona. Nenhuma piada é minimamente engraçada, o que faz o Zorra Total da Globo parecer uma adaptação de Shakespeare. Segundo o filme, os latinos (aqui representados por Sofia Vergara e outro anônimo) são débeis mentais exóticos, no mínimo. Hilário como um velório. O diretor Garry Marshall deveria estar ausente na maioria das cenas, comendo um hot dog em alguma esquina longínqua. É a única explicação para a total falta de timing para o humor. - O elenco: Zac Efron, Halle Berry, Jessica Biel, Hilary Swank, Sarah Jessica Parker, Ashton Kutcher, Katherine Heigl, Jon Bon Jovi, e por aí vai. Uma constelação de astros desperdiçados em papéis minúsculos, que nunca conseguem a mínima empatia com o público. Cada vez que o Bon Jovi abriu a boca durante a projeção tentando “interpretar”, tenho certeza que um anjo morreu asfixiado no Céu. - Robert De Niro e Michelle Pfeiffer: Michelle conseguiu a proeza de atingir o fundo do poço de sua carreira; já De Niro, um dos maiores atores vivos, só cumpre tabela, já que há muito tempo aceita pagar todo e qualquer mico nas telas (Entrando Numa Fria Maior Ainda Com A Família é do ano passado!). - O romance: aí a coisa até que melhora alguns miligramas. O filme parece uma propaganda de margarina. Provavelmente alguém que esteja passando por uma depressão profunda vai se emocionar. No meu caso, teve efeito contrário. Nunca fui fã de margarina.Quanto à minha figuração, não me encontrei nas cenas do réveillon. Saí do cinema sinceramente orgulhoso pela minha estréia em Hollywood não ter acontecido justo num filme desses. Luiz Fernando Pedrazza (neolipinel.blogspot.com) |