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A economia mundial e sua crise Nesta edição de Natal, RUA GRANDE convidou o economista, empresário e professor Paulo Feilstrecker, diretor financeiro da Ferramentas Gedore do Brasil, para a entrevista principal. As respostas versam sobre a economia mundial e sua crise. Paulo, que recentemente esteve na China, analisa cada país e cada setor envolvido neste tema que vem causando ampla expectativa geral e uma curiosidade enorme em todo o mundo.Paulo trabalha há mais de 40 anos na Gedore, onde iniciou como auxiliar administrativo e, com muita competência e dedicação, tornou-se diretor financeiro, é também professor de Economia. Possui o programa “Gente que Decide”, transmitido semanalmente na Rádio Progresso (sábados, às 11h20, e reprisado segundas-feiras, às 20h30). Casado com Bernadete Feilstrecker, o casal tem uma filha, Natália.No que diz respeito a nosso país, comenta e analisa vários setores da produção, além da atuação política federal, estadual e a vida leopoldense com relação à tão aguardada eleição municipal de 2012. Leia o que Paulo Feilstrecker falou à RUA GRANDE. O resumo de uma verdadeira e autêntica aula de economia. Leia detalhe por detalhe e saiba mais sobre economia mundial, cada vez mais presente em nossas vidas.A seguir, sua entrevista. RUA GRANDE - O senhor acompanha, preocupado, o desencadeamento da crise européia. O que é possível definir sobre ela e sobre os países envolvidos? PAULO - Em 2011 atingimos o expressivo número de sete bilhões de habitantes, num momento pouco oportuno, pois nos deparamos diante de uma expressiva crise econômico/financeira, que teve início, oficialmente, no final do ano de 2008 e que prospera desde então, podendo, ainda, perdurar por bem mais tempo. Países como Grécia, Espanha, Portugal, Irlanda e Itália encontram-se numa encruzilhada desde a instalação do Euro. A maneira como estes países passaram a fazer parte da comunidade do Euro, como os números foram manipulados, a inflação, as questões políticas, as batalhas internas como as ocorridas por longo tempo na Espanha, os entraves fiscais e trabalhistas, a própria máfia italiana, inclusive, que colocava empecilhos ao desenvolvimento italiano, foi esquecida como num passe de mágica, capitaneada pela Alemanha, auxiliada pela França, com a promessa de adoção de padrões de vida destas economias fortes. RG - As nações européias passaram de uma realidade própria, enfim, a países sem problemas. PAULO - De um ano para o outro, simplesmente, estes países passaram a fazer parte de uma realidade próspera e rica, onde supostamente não haveria mais desajuste social e o padrão de inflação alemão estaria implantado em toda a economia européia. RG - A Grécia, uma das mais atingidas, já se acomodou?PAULO - De certa maneira, atualmente, a Grécia já se acomodou diante da crise pelo recebimento dos recursos, bem como pelo perdão de 50% de sua dívida externa, mas isto não é tudo! Para termos um exemplo do descontrole, podemos dizer que enquanto na Alemanha um livro escolar tem vida útil de até cinco anos, na Grécia este tempo mal chega a um ano, pelo que se percebe o desperdício do governo e, por conseqüência, a falta de consciência da própria população. RG - E a Itália? PAULO - Neste exato momento, o risco mais sério para a manutenção da crise na comunidade européia e mundial é a Itália, que tem pela frente não exatamente a alta dos juros exigidos pelo mercado financeiro para rolar sua divida pública, mas sobretudo a desaceleração econômica que se anuncia pela frente. A alta dívida italiana é mais sensível a uma eventual recessão do que a alta dos custos de financiamento no mercado.Para termos uma idéia, hoje, a dívida italiana atinge patamares de 120% do PIB (Produto Interno Bruto) e, se o crescimento nos próximos anos não for expressivo, este número tende a crescer algo como mais 20 pontos percentuais, podendo ocorrer já nos próximos cinco anos, o que seria uma catástrofe para a Itália e para toda a zona do Euro. RG - Quem gerou essa crise mundial? PAULO - A crise mundial não foi gerada apenas por questões políticas ou porque as taxas de juros são muito elevadas. O problema todo está centrado, principalmente, na má gestão dos administradores da vida pública, no alto índice do endividamento provocado pela farra dos gastos públicos, elevando ao extremo a dívida pública e escasseando programas de desenvolvimento e de manutenção da qualidade de vida da população. Muitas discussões e acusações estão sendo feitas de ambos os lados, mas o continente europeu precisa de crescimento, não apenas de reformas e de um aperto de cintos e, para tanto, apenas uma grande onda de estímulos em toda a área do euro é que poderá conseguir atenuar esta crise toda. RG - Qual é o clima entre os investidores? PAULO - As três maiores economias do planeta não podem continuar neste mesmo rumo e todo mundo sabe disso. Os investidores estão nervosos porque há sinais de que a China está na direção de um desaquecimento brusco, de que os Estados Unidos novamente irão afundar na recessão e de que a zona do Euro, simplesmente, está para implodir. Uma pergunta que necessita ser formulada e questionada, qual destas três economias será a primeira a naufragar ou tropeçar nos seus enormes problemas? RG - Como está a China? PAULO - Com relação à China, existe também uma necessidade de reformas econômicas. Passaram-se quatro anos desde quando o premiê Wen Jiabao, advertiu, pela primeira vez, que o modelo econômico do país ficaria instável, desequilibrado e descoordenado, já que o desenvolvimento chinês depende das exportações para a Europa, Japão e Estados Unidos, não desprezando outros países, como o próprio Brasil. Mas, por outro lado, a China está aumentando suas despesas estatais e privadas em investimentos fixos, que hoje respondem por quase metade do crescimento da China, basta visitar aquele país, assim como fiz recentemente, e visualizar o boom do setor imobiliário residencial e comercial, maiores gastos governamentais em infraestrutura e mais empréstimos baratos dos bancos estatais para empresas estatais. RG - E os Estados Unidos? PAULO - No tocante aos Estados Unidos, prescinde uma restauração de credibilidade e confiança na saúde fiscal de longo prazo para poder cortar gastos com benefícios governamentais e com a área de defesa americana, mas em contrapartida necessita aumentar suas receitas. Não pode deixar de ser considerado que a liderança no desenvolvimento tecnológico de ponta e o potencial em energias renováveis e aparelhamento médico, bem como a computação, darão aos Estados Unidos uma grande vantagem em relação a outras nações. RG - Como vai portar-se o Japão? PAULO - O Japão, outra potência mundial, deve continuar a se levantar, mas com riscos de declínio. Entre os maiores riscos estão a desaceleração adicional das economias menos resistentes no exterior, flutuações voláteis nas taxas de câmbio e nos preços, devido à crise da dívida da zona do Euro e da inundação ocorrida na Tailândia. RG - Doutor Paulo, chegamos ao nosso país. PAULO - No Brasil, vivemos ainda um período de transição de governança política. A Presidente Dilma passa por momentos de ajustes políticos, já se foram sete Ministros de Estado, o que consiste num recorde dos últimos anos. Em 2011, o Brasil pagou as dívidas e saldou os débitos do presidente anterior. Os investimentos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) não contribuíram para a aceleração do crescimento econômico em 2011 e esperamos que para o próximo ano ele seja determinante para a continuidade e o crescimento sustentável da economia brasileira, para então, no ano de 2012, dizer para que a mesma foi eleita.As importações brasileiras passaram a responder por 23,4% do consumo doméstico de bens industriais, praticamente um quarto do que o país consome, vem de fora.O coeficiente de exportação, que mede a participação das exportações na receita da indústria, cresceu em ritmo menor do que as importações. O aumento das importações evidencia uma desindustrialização do país, pois o produto estrangeiro está tomando o lugar da produção nacional. Embora estejamos num mundo globalizado, não é de todo ruim importar, mas o problema é que a indústria não consegue competir e ainda precisa exportar, enquanto que o consumo está sendo substituído pelos produtos de fora, preocupando muito o setor empresarial. RG - Como devemos projetar ou pensar em 2012? PAULO - Em 2012 três fatores deverão favorecer a maior penetração de bens importados: o real valorizado, a demanda menor por parte das economias desenvolvidas e os incentivos fiscais que alguns Estados dão aos produtos importados. Mesmo que o Brasil venha a crescer acima das maiores economias mundiais, no ano de 2012, a situação da indústria nacional não irá mudar, apesar da redução das alíquotas de alguns itens da chamada linha branca, porque não será o suficiente para alimentar o aumento da produção; a redução de impostos e dos encargos para o ingresso de capital ao país, poderão provocar uma significativa entrada de recursos, mas em se tratando de recursos voláteis, assim como chegam, também saem para onde lhes seja assegurado retorno melhor. RG - Há setores com dificuldades? PAULO - Outro setor que enfrenta grandes dificuldades e fomenta a desindustrialização é o de máquinas-ferramentas e equipamentos industriais, que compõe o grupo dos chamados bens de capital e que movimentou cerca de R$2,4 bilhões em 2011, isto é, aproximadamente 10% mais do que no ano de 2010. No mínimo, a indústria nacional não registra ganhos de produtividade há quatro trimestres, no entanto, há um ganho efetivo do salário do trabalhador, onerando cada vez mais o custo industrial brasileiro. RG - Que medidas devem ser tomadas? PAULO - O Brasil está necessitando discutir/negociar várias questões pendentes há longos anos, como a dívida interna nacional, dos estados e dos municípios, as reformas no âmbito administrativo, político, fiscal e trabalhista. A sociedade necessita discutir mudanças acerca de um tema pontual - o pré-sal, pois que a exploração nem sequer começou e já se discute quanto vamos ganhar, quem vai “LEVAR”... É muito tempo perdido, atenção desviada e o principal, educação, saúde e segurança continuam igualmente em compasso de espera.Estamos nos aproximando da Copa do Mundo e parece que tudo está correndo muito bem, mas quando viajamos pelo Brasil, podemos constatar que está sendo construído muito pouco em termos de mobilidade, que seria de fato o grande legado a ser deixado para a população, pois os estádios são apenas um detalhe, uma casa de shows. RG - E o Rio Grande do Sul? PAULO - Quanto ao nosso Estado, tudo não passa de cobranças, ameaças, greves, tudo por conta de promessas eleitoreiras, pois mesmo que o recorde de arrecadação prevista para o ano de 2011 seja batido, apenas 5% deste montante poderão ser gastos com investimentos para a população do Rio Grande do Sul. A diferença está atrelada a compromissos como folha de pagamento, juros para o governo central, promessas municipais, estaduais e federais, ampliação de aeroporto, vias rodoviárias, fluviais, cais do porto, metrô. Enquanto alguns dos pontos acima mencionados não ocorrerem, continuaremos minguando o estado como economia e representatividade do que um dia seria o Mercosul, outra promessa que nunca rendeu nada de riqueza a este pobre Estado. RG - De que forma São Leopoldo se apresenta neste cenário? PAULO - Bem, no tocante a São Leopoldo, teremos que aguardar o ano de 2012, ano de eleições municipais. Embora muita coisa já tenha sido feito nestes últimos sete anos de governo do PT, o que muita gente duvidava, ainda há muito por fazer para qualificar a vida destes mais de 200.000 habitantes, pois muitos recursos aqui aportados vieram do governo central e, agora, com as “torneiras” mais ajustadas, conseqüentemente, também fica mais difícil trabalhar.Necessitamos de uma alavancagem maior de indústrias no município. Sabe-se que áreas estão sendo preparadas e disponibilizadas, mas o processo político é sempre muito lento e o tempo vai passando e nós vamos perdendo espaço dentro do estado e da nação. Para finalizar, podemos deixar registrado o desejo de um feliz 2012, mesmo diante das dificuldades, mas que nós, como bons brasileiros, haveremos de vencer.
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