Skip to content

Revista Rua Grande

Diminuir resolução de tela  Aumentar resolução de tela  Aumentar tamanho do texto  Diminuir tamanho do texto  Tamanho padrão de texto 
    
Artigo - Os profissionais da Educação
Qui, 17 de Fevereiro de 2011 15:26


Um olhar para o futuro da escola

 

 

Graziela Rinaldi da Rosa

 

Ao iniciarmos um curso de Licenciatura Plena imaginamos que o estudo realizado ao longo do curso, com disciplinas, pesquisas, cursos de extensão, estágios supervisionados de no mínimo 300 horas e outras atividades nos deixam plenamente habilitados para sermos profissionais da Educação.

O Diploma é o início, ele nos habilita e a prática nos capacitará. Na LDB consta que "a experiência docente é pré-requisito para o exercício profissional de quaisquer outras funções de magistério, nos termos das normas de cada sistema de ensino". É se dando conta disso que os profissionais da educação estão buscando formação e aperfeiçoamento constante. Mas, o que a LDB nos diz sobre os profissionais da educação? Segundo o Artigo 61 da Lei de Diretrizes de base, "os profissionais da educação básica são os que nela estão em exercício e tendo sido formados em cursos reconhecidos". Ao pensar o profissional da educação nos dias de hoje cabe questionarmos que outros pré-requisitos são fundamentais para a prática docente? Seria apenas necessário ter a formação em um curso reconhecido? Sabemos que é preciso muito mais do que formação para atuar na educação.

Levando em consideração que a LDB foi escrita em 1996, e posteriormente atualizada iremos analisar suas definições e buscar definir as características que os profissionais da educação necessitam ter para sua prática nos dias de hoje. Saber quem é o profissional da educação, segundo a LDB é o objetivo principal dessa reflexão. Compreender quais são os pré-requisitos para a atuação desse profissional é fundamental para compreendermos e repensarmos o futuro desse profissional e da escola.

No que consta na LDB, o profissional da educação (parágrafo único) precisa ter algumas características para atender as suas especificidades do exercício de suas atividades, e atender aos objetivos das diferentes etapas e modalidades da educação básica. Vejamos:

 

I – a presença de sólida formação básica, que propicie o conhecimento dos fundamentos científicos e sociais de suas competências de trabalho; (Incluído pela Lei nº 12.014, de 2009)

II – a associação entre teorias e práticas, mediante estágios supervisionados e capacitação em serviço; (Incluído pela Lei nº 12.014, de 2009)

III – o aproveitamento da formação e experiências anteriores, em instituições de ensino e em outras atividades. (Incluído pela Lei nº 12.014, de 2009)

 

Inicialmente a LDB pontua a importância da formação, que é base para toda e qualquer atuação. Mas podemos questionar sobre a "sólida formação básica", entendida como aquela que proporciona o conhecimento dos fundamentos científicos e sociais de suas competências de trabalho. Hoje, sabe-se que saber sobre os fundamentos científicos, ou seja, teorias e fórmulas de sua área de atuação não garantem a atuação profissional com sucesso, mas pode sim ser a base para a atuação do profissional na educação se esse profissional desenvolver práticas de sucesso.

Acompanhamos tantos acontecimentos negativos com relação ao profissional da educação, muitos são vítimas de violência, outros são autores de violência física ou psicológica. Então o que nos inquieta é o fato de sabermos que na prática, o diploma não é o único requisito necessário para a prática em sala de aula, visto que há outras habilidades e competências que a todo instante em sala de aula são exigidas, como diálogo, mediação, sensibilidade, flexibilidade, compaixão, alegria, compreensão e acima de tudo amor pela sua atuação como profissional da educação.

No tópico II, fala-se da relação teoria e prática. Porém essa definição é ampla e podemos questionar: Que tipo de práticas auxilia o profissional da educação nos dias de hoje? Sabemos que cada instituição irá delimitar e caracterizar essas práticas, conforme suas diretrizes, seus valores e corrente de pensamento. Sendo assim, o aproveitamento da formação e experiências anteriores, citada no item III são de suma importância, pois é o que garantirá a autonomia do professor e suas habilidades para tratar com as crianças e jovens de nosso tempo.

Sabemos que a formação de docentes para atuar na educação básica far-se-á em nível superior, em curso de licenciatura, de graduação plena, em universidades e institutos superiores de educação, admitida, como formação mínima para o exercício do magistério na educação infantil e nas quatro primeiras séries do ensino fundamental, a oferecida em nível médio, na modalidade Normal. Esse pré-requisito é o mínimo que se deve ter. O que diferencia na prática docente é a metodologia, implicada na sua prática e com base nas suas experiências anteriores.

Outra característica fundamental para que o profissional da educação tenha um bom desempenho profissional é a busca constante por aperfeiçoamento, ou seja não se acomodar e se atualizar. Vivemos em uma sociedade onde os sujeitos estão midiatizados, como irão ficar atentos apenas nas tradicionais explicações dos profissionais da educação?

Para atuar com crianças e jovens de uma geração em que a comunicação se dá de diferentes maneiras e o conhecimento também, se faz necessário a educação continuada. Na LDB consta artigo 62, que fala sobre a educação à distância:

§ 2º  A formação continuada e a capacitação dos profissionais de magistério poderão utilizar recursos e tecnologias de educação a distância. (Incluído pela Lei nº 12.056, de 2009).

§ 3º  A formação inicial de profissionais de magistério dará preferência ao ensino presencial, subsidiariamente fazendo uso de recursos e tecnologias de educação a distância. (Incluído pela Lei nº 12.056, de 2009).

A educação à distância é uma das alternativas para o profissional da educação se atualizar. Visto que a pratica docente demanda muitas tarefas: planejar, corrigir, pesquisar, organizar, calcular notas, preencher cadernos e planilhas, digitar conteúdos, elaborar avaliações, digitar avaliações, digitar notas, entre outras além daquelas recorrentes ao trato humano: sensibilizar, dialogar, mediar, intervir, educar, apaziguar, acalentar, cuidar, vigiar..Sendo assim, a educação à distância se tornou uma boa opção para o aprimoramento acadêmico.

Segundo a LDB (Artigo 67º), a valorização dos profissionais de educação deve ser garantida em estatutos e do plano de carreira do magistério público. Esses documentos são fruto de políticas públicas educacionais, porém, muitas lacunas podemos encontrar neles.

As políticas educacionais são repensadas e analisadas por estudiosos, porém o profissional da educação precisa conhecer e atuar mais nesse campo. Muitas são as reclamações no que diz respeito ao piso salarial, por exemplo. Recebemos um baixo salário e o período reservado ao estudo, planejamento e avaliação (incluído na carga horária) não suprem a demanda de trabalho.

Outro aspecto importante de ser destacado é com relação as "condições adequadas de trabalho", constante também no artigo 67º da LDB. No Brasil as escolas públicas, os centros tecnológicos, Universidades enfrentam sérios problemas de conservação. As salas de aulas estão muitas vezes precárias; faltam materiais didáticos; as classes e cadeiras são sucateadas, quando existem. Muitas escolas no Brasil não possuem salas de aulas.

Sendo a realidade muito diferente em algumas regiões do Brasil, se comparadas com o que consta na LDB iremos refletir sobre o futuro dos profissionais da educação e da escola. Será que a escola tem futuro?

 

O FUTURO DOS PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO É O FUTURO DA ESCOLA

 

Com base no contexto exposto anteriormente, cabe refletirmos sobre o futuro dos profissionais da educação, questão que está relacionada com o futuro da escola. Em um livro chamado "A escola tem futuro?" Organizado por Marisa Costa, publicado pela DP&A Editora a autora entrevista seis pesquisadores e pesquisadoras que falam sobre suas perspectivas quanto a essa instituição de ensino, destaco algumas idéias: 1 a escola que sonhamos é aquela que assegura a todos a formação cultural e científica para a vida pessoal, profissional e cidadã (Libâneo, 2002); 2.a escola tem que ser um espaço de crítica para que o professor e a professora ajude a situar melhor o estudante neste mundo (Moreira, 2002); 3. a escola é uma instituição forte e a educação escolar é exigência crescente da população, e portanto concentra expectativa (Nilda Alves, 2002); 4. a escola está envolvida na transformação dos homens: de selvagens em civilizados; ou seja cidadãos capazes de tolerar, ter cooperação mútua e sem se barbarizarem (Alfredo Veiga-Neto, 2002); 5. a escola é possível na medida que contribui no avanço dos direitos humanos, nesse sentido a escola tem sentido se ela leva em conta e acompanha os tempos da vida do ser humano (Miguel Arroyo, 2003); 6. A escola precisa fazer sentido para a população, ela precisa existir como um espaço de aprendizagem, de ensino, de aprendizagem sistemática da cultura e portanto ela tem que fazer a diferença (Selma Pimenta, 2003).

Ao analisar essas palavras de pesquisadores da educação Brasileira, nos damos conta da dimensão do papel social dos profissionais da educação e da escola. Porém esse discurso é contrastado com a realidade da educação brasileira.

Acompanhamos tantos acontecimentos negativos com relação ao profissional da educação, muitos são vítimas de violência, outros são autores de violência física ou psicológica. Então o que nos inquieta é o fato de sabermos que na prática, o diploma não é o único requisito necessário para a prática em sala de aula, visto que há outras habilidades e competências que a todo instante em sala de aula são exigidas, como diálogo, mediação, sensibilidade, flexibilidade, compaixão, alegria, compreensão e acima de tudo amor pela sua atuação como profissional da educação.

Outras tantas são as formas das crianças e jovens se educarem, talvez seja por isso que não se valoriza e respeita o profissional da educação como se deveria. Porém, mesmo que hoje percebemos que a educação formal não seja a única maneira de educar, pois a televisão, a internet, as propagandas educam, não há como negar a importância da escola no que diz respeito a leitura e a transformação do mundo em que vivemos.

Hoje assistimos propagandas do Ministério de Educação que convidam as pessoas a ser um professor. Na propaganda referida o enfoque é: "O Brasil conta com quase 200 mil escolas de educação básica espalhadas pelo território nacional. Uma delas está esperando por você".

Essas propagandas exaltam a importância desse profissional, e também demonstra que faltam pessoas interessadas nesse campo profissional, pois o profissional da educação não está sendo valorizado. É sobre essa imagem, de sujeitos importantes que as propagandas devem atuar, para sensibilizar a população a ter mais respeito e sensibilizar as autoridades a valorizarem com salários dignos e bons ambientes de trabalho.

Educar nos dias de hoje não é tarefa fácil. Algumas pessoas acreditam que não quebramos totalmente o paradigma moderno, visto que não temos como esquecer totalmente do passado e fazer de conta que a história não existe, ou não é significativa. Por outro lado, alguns pesquisadores e pesquisadoras do campo educacional têm afirmado que vivemos na pós-modernidade, isso por que nosso mundo globalizado transformou nossa maneira de agir, pensar e ser que precisamos transformar e educar num mundo em que perdemos nossos valores e identidades. Para ambos o momento de crise é identificado. Nos constituímos como sujeitos sem identidades, buscamos o prazer imediato, além de buscarmos ter domínio sobre tudo, essas são apenas algumas características de nós sujeitos desse tempo.

Houve épocas em que a educação foi construída a partir da concepção de que o ser humano não era bom e que através da educação poderíamos mudar os indivíduos (John Dewey), nesse caso a educação tinha que fazer a diferença. Outros pensadores, como por exemplo, Thomas Hobbes acreditava que o ser humano era bom por natureza, mas a sociedade que o corrompia. Tivemos quem acreditava que o mundo é bom, e o indivíduo também, mas que precisamos mudar a estrutura social e fazer revolução (Karl Marx). Mas, em todas as épocas os profissionais da educação foram valorizados socialmente.

Paulo Freire, já dizia antes mesmo dos anos 80 que além das mudanças na estrutura social, nós temos que fazer na educação algumas mudanças, nesse sentido a crença na educação foi retomada e no mundo todo, principalmente no exterior o papel de quem educa e da própria educação era fundamental para transformar.

A nova sociologia da educação colocou em questão a discussão das classes sociais. Bourdieu foi um dos intelectuais que questionou se a escola reproduzia ou transformava. Aos poucos alguns educadores (as) e pesquisadores (as) não acreditavam mais em transformações radicais, mas nas micro-transformações. Era o que denominaram "fins das metanarrativas" (da crença no socialismo, ecumenismo, e todos os "ismos" existentes).

O "paradigma pós-moderno" não acredita no progresso, mas que tivemos momentos de progresso. Leva em conta que a educação, assim como tudo, está em constante movimento. Segundo Diáz (1999) os discursos da pós-modernidade utilizam termos como desconstrução, alternativas, perspectivas, indeterminação, irreversibilidade, descentralização, dissolução, diferença (p. 15). Essa transição paradigmática passou a levar em conta o pluralismo metodológico e teórico e não apenas a ciência, o progresso, questões tão acentuadas por pensadores como Kant, por exemplo, que concebeu uma ciência, uma ética e até mesmo a arte a partir da razão. Até mesmo a moral é regida pela razão.

O século XX foi marcado pela influência cartesiana, onde o conhecimento foi fragmentado, passou a ter uma ótica mecanicista, repleta de reducionismos e determinismos, pelo pensamento linear, pensamento racionalista, houve uma separação da psique e da matéria e havia a idéia de que eu só conheço aquilo que é demonstrável. Repartiram-se tudo na educação (os cursos em disciplinas; os anos em séries; as horas em períodos; a instituição em centros; os centros em departamentos).

Hoje percebemos que o modelo fragmentado não "cabe" mais em nossos dias, pois ele provocou a perda da visão de totalidade e da consciência global. E os profissionais da educação precisam se adaptar, reorganizar novamente e dar conta de um conhecimento global. O conhecimento foi levado para manuais (enciclopédias, por exemplo) e os professores (as) muitas vezes eram apenas "enciclopédias ambulantes". Hoje esse modelo de profissional não cabe mais.

Nesse contexto é que a educação tem acontecido, e precisamos nos organizar, replanejar, e repensar nossas escolas e a educação no geral.

PARA FINALIZAR

 

Muitas pessoas no campo das pesquisas educacionais têm pensado o papel da escola e sua função, porém, quem de fato constrói essa escola são os sujeitos que cotidianamente passam e freqüentam a escola - o corpo docente, os estudantes, a família, ou seja, toda a comunidade escolar-.

É emergente que os profissionais da educação tenham seus direitos garantidos e que de fato o que consta na LDB quanto as condições de trabalho seja melhorado. Precisam ser acrescentados alguns artigos sobre o trabalho docente, para que esse não seja totalmente burocratizado e a essência de sala de aula não se perca. O ato de ensinar e de aprender ficando em segundo plano. Poucas escolas e raros profissionais da educação estão conseguindo cumprir o seu papel. Os profissionais da educação precisam dar conta de tantas tarefas, tantas folhas, planilhas e digitações que acabam atuando em sala de aula, muitas vezes com total desânimo. Isso não significa deixar de lado as novas tecnologias, mas precisamos de mais tempo para tudo isso. A LDB precisa ser mais clara nesses aspectos e de fato garantir o ato de educar. Pois para se educar é preciso condições e suporte político-pedagógico.

É no cotidiano escolar que fazemos da escola, um espaço de construção de saberes, construção de valores, de sujeitos críticos, autônomos, capazes de atuarem na sociedade como cidadãos e cidadãs. De fato os profissionais da educação são extremamente importantes para o futuro de um país. Mas as condições que são oferecidas são precárias. Tanto que muitos profissionais da educação abandonam essa função.

Sabemos que, muitos são os desafios para a escola em nossa atual sociedade, uma sociedade fragmentada, globalizada, uma sociedade em crise e carente de valores humanos. Nesse sentido precisamos construir e reconstruir diariamente uma escola que tenha claro o seu papel e precisamos urgentemente pensar nos profissionais da educação, valorizando-os, repensando suas práticas e as políticas públicas educacionais.

Os profissionais da educação merecem um piso salarial digno, salas de aulas com menos estudantes, pois as crianças e jovens demandam muito mais dedicação do que em outros tempos, laboratórios completos e com equipamentos suficientes, salas de aulas estruturadas, salas interativas, equipamentos áudio-visuais, além de menos burocratização e mais autonomia. Isso é o mínimo para conseguirmos educar em tempos midiatizado e de descrédito dos valores humanos. Afinal, o futuro dos profissionais da educação é o futuro da escola.

Graziela Rinaldi da Rosa é professora/doutoranda em Educação-UNISINOS)



REFERÊNCIAS

BRASIL. MEC. Seja um professor. Disponível em: < http://sejaumprofessor.mec.gov.br/ >. Acesso em: 20 de Jan. 2011.

BRASIL. MEC. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/ldb.pdf. Acesso em: 10 jan. 2011.

COSTA, Marisa Vorraber.A escola tem futuro? Editora DP&ª Rio de Janeiro 2003.

DIAZ, Esther. Qué es la posmodernidad? IN: Posmodernidad. Buenos Aires, Editorial Biblos, 1999, (p.11-33)

GADOTTI, Moacir. Perspectivas atuais da educação. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-88392000000200002&script=sci_arttext&tlng> Acessado em 20/01/2011.


Página inicial

Mais artigos